O kumite é um método de treino que dá aplicação prática às técnicas ofensivas e defensivas aprendidas nas katas, onde os oponentes se encontram frente a frente.
A importância das katas no kumite é decisiva. Se as técnicas não são usadas com
naturalidade mas sim de uma forma forçada, a posição e a forma não serão
correctas. Também ao serem usadas se se confundem as técnicas de uma kata com
as de outra kata não se poderá esperar grande perfeccionismo no kumite. O
melhoramento do kumite depende do progresso em kata. Kumite e kata estão tão
juntos como a mão e o braço. Dar mais importância a um e expensas a outro é
sempre um erro.
No treino de kumite cada aluno deve praticar inicialmente um tipo adequado ao seu próprio nível. É portanto, necessário entender claramente as características distintas dos diversos tipos de kumite e pratica-los, tendo em mente, os seus objectivos claros.
Ippon Kumite
É a forma mais básica. Os karatecas estão separados por uma distância fixa e o objectivo fica determinado antecipadamente. Fazem-se alternadamente ataques e defesas. Os praticantes alternam-se na defesa e no ataque. A cada ataque corresponde uma defesa e um contra-ataque final.
1. Deve adquirir-se a destreza
necessária para contra-atacar poderosamente, usando as técnicas básicas.
2. Aprender a relação existente entre a defesa e a sua utilização como
técnica decisiva.
3. Aprender como fazer uso de fixar o MAAI, isto é, a distância a que um
ataque pode ser efectuado e em que de uma defesa pode nascer um contra- ataque
decisivo.
4. Em relação à distância e à posição no momento de defesa, deve-se
desenvolver o reflexo instantâneo de contra-atacar rapidamente,
seleccionando a técnica decisiva mais apropriada.
5. Adquirir o sentido de oportunidade (timing) na defesa, que vem
através dos movimentos totais do oponente, esperando até ao último momento e
defende-lo, contra-atacando rapidamente.
6. Fazer uso das diversas posições possíveis a adoptar quando se
defende.
Sanbon Kumite
É a execução repetida de 3 ataques e de 3 defesas finalizando com um contra-ataque final.
1. O primeiro objectivo deste kumite é
conseguir ser um perito no uso das formas e técnicas fundamentais de ataque e
defesa. O que significa repetir e polir constantemente os ataques de punho e
pernas, as defesas e as posições fundamentais até realizá-las com o máximo de
exactidão, sabendo mover os pés.
2. Os alunos mais avançados devem também adquirir uma grande mestria
para se moverem com fluidez e velocidade.
Jiyu Ippon Kumite
Ambos os adversários ficam em kamae (guarda) livremente e com distância opcional. O atacante ataca com decisão anunciando a área do seu objectivo. O defensor efectua livremente uma defesa, empregando as técnicas que domina e contra-ataca depois. Este sistema de treino põe em prática as técnicas ofensivas e defensivas. Antecede o Jiyu Kumite.
O atacante deve tirar partido de qualquer abertura que localize na guarda do defensor, atacar com vigor, cuidando de uma sincronização perfeita, calibrando exactamente o MAAI (distÂncia) e o KOKYU (ritmo de respiração) e dispondo de fintas e outros artificios oportunos. O defensor exercita a defesa (avançando, retrocedendo ou executando tai-sabaki, para o lado esquerdo ou direito), e realiza as suas técnicas em qualquer direcção contra-atacando no fim. O jiyu ippon kumite é um treino importante para progredir no conhecimento das técnicas, para cultivar uma boa visão e uma intuição genuína, indispensável para realizar ataques e defesas.
1. Deve-se
considerar como uma etapa para o jiyu kumite e por isso treinado com
seriedade.
2. Tomando a
distância com descrição, os ataques e defesas praticam-se livremente, adquirindo
a destreza necessária para realizar uma técnica decisiva de uma só
vez.
3. Aprender a obter
a vantagem decisiva da oportunidade, já que esta só se apresenta uma só
vez.
4. Adestrar-se nos
métodos para realizar um contra-ataque efectivo, com técnicas decisivas,
potentes e com técnicas combinadas com deslocamentos (movimentos de
pernas).
Jiyu Kumite
1. Deve-se treinar o
jiyu kumite até adquirir a mestria em matérias tais como: obter a vantagem em
MAAI, a qual muda incessantemente, levando assim o oponente ao MAAI favorável a
nós próprios, ou surpreende-lo enquanto inicia o ataque.
2. Estudar as formas
de obter e utilizar a oportunidade (timing).
3. Praticar as
mudanças de técnicas e as técnicas combinadas.
4. Conseguir
converter uma defesa em ataque.
5.. Estudar a forma
de tomar a iniciativa subsequente.
6. Estudar a forma
de tomar a iniciativa antecipada.
7. Aprender a
avaliar as situações reconhecendo e diferenciando as reais das aparentes ou das
preparadas pelo oponente.
8. Estudar as
técnicas contínuas e o tai-sabaki.
9. Conseguir o
máximo de nós mesmos, dedicando todo o interesse e centrando a nossa mente num
treino sério.
Pontos essenciais do Jiyu Kumite
1. Kamae: Postura de preparação para começar (parte superior do corpo). O kamae deve permitir o movimento de ataque ou defesa em qualquer direcção, permanecer de pé, corpo na vertical e com o tronco em hanmi; manter a cabeça direita, sem inclinar nem para trás nem para a frente nem para os lados. O braço adiantado ligeiramente curvado, dando protecção à zona das costelas. O braço de trás ficará dobrado perto do plexo solar. Não deve haver força desnecessária nos cotovelos. O centro de gravidade deve estar na linha natural do corpo.
2. Tachikata: Posição formal. Manter o corpo erguido, sem esforço nem tensão. com os pés metidos ligeiramente para dentro e em hanzenkutsu dachi. Flectir um pouco os joelhos deixando que ambas as pernas suportem por igual o peso do corpo. Concentrar energia nos dedos dos pés ou em toda a planta do pé.
3. Mesen: Olhar e posição da cabeça. Concentrar a vista sobre o rosto ou nos olhos do adversário. Deste modo podemos vê-lo todo desde a cabeça aos pés. Observar o adversário, deixando os olhos actuarem como se estivessem a observar um objecto mais distante.
4. Maai: Distância entre os oponentes. Frente ao adversário a distância é vital para a estratégia da luta. Maai pode definir-se praticamente como a separação que facilita o avanço de um passo e lançar correctamente um ataque de punho ou perna; no inverso, é o intervalo que permite retroceder um passo e proteger-se de um ataque. A distância de cada Maai ocupa uma extensão maior ou menor, em concordância com a técnica aplicada e com a forma de manter afastado o adversário, com possibilidade de acercar-se dele quando seja conveniente. O Maai é importante para decidir a vitória ou a derrota e, o seu domínio é fundamental.
5. Waza O Hodokosu Koki: Momento
adequado de execução. Se se atacar com iniciativa antecipada ou subsequente, a
verificação da técnica só produzirá efeito se se souber aproveitar a abertura
na guarda, que pode ser de 3 classes: mental, em kamae eem movimento.
Os próximos aspectos pertencem à 3ª categoria:
A. Quando o adversário inicia a sua técnica. O movimento começa ao localizar-se uma abertura, atacando directa e instantaneamente. Se a atenção se concentra no ataque, abandonando a defesa, é fácil então encontrar uma abertura.
B. Quando chega o ataque. Ao efectuar-se um ataque, ou ao defender numa combinação de técnicas, contra-atacar quando se vir que a estratégia do adversário terminou ou as suas técnicas pararam.
C. Quando a mente não está atenta. No karate existem advertências estritas para evitar surpresas quando se está vacilante. Perante um pontapé ou qualquer outro ataque directo eminente, se se faz um passo atrás frente à intenção do adversário, este vacilará sobre se deve ou não lançar o ataque; este ficará confuso e aparecerá uma abertura mental. Há assim a possibilidade de atacar repentinamente, com êxito assegurado.
D. Criação de uma abertura. Se não existe uma abertura, empregar uma finta para distrair o adversário. Por exemplo: movendo os pés com estratagema, levando a atenção para o chão, criando uma oportunidade de atacar sobre a parte superior do corpo. Podemos fazê-lo com as mãos ou com os pés, mas se se fizer isso com lentidão, será o adversário a encontrar uma abertura. É necessário controlar a froça própria e executar o pontapé ou o soco com segurança. Convém fazer técnicas combinadas de modo a impedir o contra-ataque. Finalmente fazer um ataque instantaneo e decisivo sempre que vejam que o adversário perde a postura ou abre a sua defesa.
Yakusoku Kumite
Significa combate pré-estabelecido e pode ser feito de modo a demonstrar uma larga variedade de técnicas. Nesta forma de combate os movimentos de ataque e defesa são determinados previamente. A defesa utiliza técnicas de defesa e um contra-ataque, fazendo técnicas de projecção ao chão (Nage Waza), ataques às articulações (Kansetzu Waza) ou ataques simultâneos, dependendo de que técnicas estão a ser praticadas. Os alunos devem praticar a defesa e o ataque e executá-los com ambos os lados, esquerdo e direito. O Yakusoku Kumite avançado é executado com máxima velocidade e força e com técnicas controladas e normalmente é composto por muitas combinações de técnicas. Em Goju-Ryu Karate-Do é bastante comum que o atacante acabe no chão, depois de projectado pelo defensor. Existem várias formas de trabalhar Yakusoku Kumite, uma delas é a de quem iniciar o ataque é quem defende e aplica o contra-ataque.
Goju-Ryu Randori
É o método de treino de kumite desenvolvido
pelo Sensei Morio Higaonna. Randori é o termo do judo que significa
"experimentar" as técnicas. Em Goju-Ryu Randori, dois alunos praticam os
pontapés, os socos, as defesas, os movimentos de pés, etc. um contra o outro ao
acaso. Não é feito à máxima velocidade e a ênfase não é posta em vencer o
combate de uma forma competitiva. Cada aluno deve usar a oportunidade para
praticar conjuntamente com o outro aluno nas movimentações, nos ataques,
defesas e servindo na prática de alvo. Todas as técnicas devem ser feitas com o
máximo de controlo, tendo o cuidado de não lesionar o outro aluno através de
técnicas mal executadas ou por descuido. Randori pode ser feito devagar, como
modo de aquecimento e de treino de elasticidade; a velocidade média como método
de treino para melhorar certas combinações de técnicas; a rápida velocidade
desenvolve a velocidade de reacção. A ênfase deve ser posta sempre na variedade
das técnicas e no desenvolvimento de muitos tipos de ataques e defesas. Cada
aluno deve aprender a cooperar com o outro no Randori evitando técnicas de
chaves e apertos, fintas ou ataques enganosos ou técnicas desnecessariamente
violentas que desencorajarão o treino do outro aluno. Randori é um treino
destinado a treinar a distância, o sentido de oportunidade (timing) assim como
muitos outros aspectos ligados ao combate. Se algum aluno insistir em fazê-lo
de uma forma competitiva e tentar provar a sua superioridade em habilidade,
será muito difícil seja para quem for concentrar-se em experimentar novas
técnicas. Sendo assim o Randori converter-se-ia em combate livre o que
desviaria o treino do seu principal objectivo. Randori foi estudado para
prevenir lesões e outros problemas postos pelo combate à máxima velocidade.